Eu nunca tive relógio na minha vida. Também nunca fui muito atenta ao meu celular. Muito disso se deve ao fato de, aos 22 anos, eu ter emprestado meu livro maravilhoso “Toda a Mafalda” para um amigo meu, e ele, me emprestou o não menos maravilhoso “Histórias de cronópios” . Nem eu nem ele nunca devolvemos nossos livros...e no história de cronópios tem uma passagem maravilhosaaaaa sobre o porquê que nunca consegui usar um relógio na minha vida:
Quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você -eles não sabem, o terrível é que eles não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perde-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.
Mas o caso é que eu tava rolando pelo mercado municipal e me deparei com um relógio bonito e grande que parece aqueles de estações rodoviárias de antigamente. Foi amor a primeira vista e eu decidi levá-lo pra casa comigo. Mas o melhor não é a função de bater as horas. O melhor dele é primeiro a função estética de combinar com a minha pequena lamparina (sim, minha casa tem um quê de velho oeste), e em segundo, gente, até me emociona: o relógio faz tique – taque. Daí que é perfeito pra minha cabeça e raciocínio de baterista. O tique taque parece um metrônomo. Eu fico imaginando pratadas, bumbadas e viradas entre um tique e um taque. Essa fatia de tempo me parece um quebra cabeça, de onde eu vou encaixar o que. E eu fico imaginando e sei que os ritmos que se formam na minha cabeça são perfeitamente executáveis. E eu sou daquelas bateristas que não sabe ler muita partitura (na verdade não sei ler é nada), então eu toco o que minha imaginação transmite. E por isso esse relógio foi perfeito pra mim, pro momento que estou agora.
O momento sublime de sentar na bateria e descer o braço, e martelá-la tanto que as vezes eu sinto que estou mandando uns trovões iluminados nos meus dias de tédio.
Então eu justamente venho aqui fazer um apelo: eu preciso de uma banda. Pode ser de qualquer coisa, desde que seja rock. Rock em todas as suas variáveis e vertentes. Rock de corpo e alma. E peso. E veloz. Mais veloz do que peso talvez. E mais alma do que corpo também. Mais essência do que aparência por favor. E pra todos que dizem que eu não tenho tamanho suficiente pra tocar bateria, respondo com o mesmo slogan do Fox (aquele carro da Fiat) “pequena por fora, gigante por dentro”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário