terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Calabouço


Era um sanatório muito engraçado, não tinha teto, só tinha a mata.
Os carcereiros eram grilos roucos e cigarras histéricas que faziam juntos uma sinfonia sem tréguas por toda madrugada.

A mata fechada envolvia a todos no sanatório. Os loucos ficavam reunidos juntos em uma clareira espaçada, com árvores balançantes com raízes ossudas, grama bem cortada e um pequeno lago.
Montanhas ao fundo abraçavam a mata. A lua e as estrelas assistiam a tudo bem instaladas nos seus camarotes, interessadas em tudo o que se passava lá em baixo.

As árvores balançantes e dançantes que formavam os bosques eram sadias e solenes. Nem todas eram altas, mas todas eram fortes. Algumas eram imperadoras, já completamente crescidas e formadas, outras em desenvolvimento, mas todas dentro da perfeição da natureza. Muitas trocavam as cascas dos troncos quando chegavam no ciclo de troca. O vento soprava suave pelo vale. Pequenas folhas por vezes se desprendiam delas e deslizavam até a grana bem cortada.

A grama bem cortada deixava expostas as raízes ossudas das árvores. E por ela foram se formando através dos passos, caminhos batidos. Os animais que habitavam o vale tinham todos pequenas perfeições-imperfeitas. Espécies nativas de passarinhos faziam ninhos nos galhos roliços das árvores. Minhocas e mosquitos eram abundantes durante todo o tempo. Os passarinhos eram os mais engraçados de observar, com suas brigas entre sí. Bicavam-se perto dos ninhos, saiam voando, correndo um atrás do outro. Os cachorros marcavam seus territórios, e os gatos circulavam observando tudo sem se envolver com nada. Toda aquela natureza pulsava e murmurava discretamente, o que contrastava com a atuação dos carcereiros.

Os grilos roucos e as cigarras histéricas eram os guardas vigilantes daquele sanatório. Se revezavam na sua cantoria, mas muitas vezes entravam juntos, em soneto. E não davam trégua até clarear o dia.

Os loucos que estavam lá, carregavam consigo as chaves dos seus próprios túneis, porões e calabouços. Mas eles nunca achavam as chaves. Muitos nem sabiam que as tinham.
Alguns só descobriam estas chaves e os subterrâneos que elas abriam quando as cigarras e grilos se colocavam a cantar. Aquele canto estridente vibrava no final do ouvido, despertando a parte surda, e funcionava como uma bigorna apertando todos os ouvidos. Tinha quem gritasse, tinha quem gemesse, tinha quem chacoalhasse, mas eles, os loucos, não sentiam dor.

Eles não sentiam dor. Sentiam que a bigorna pressionava seus ouvidos e apertava o centro da audição. Aperta tanto que afunilava o que se podia ouvir. E só se podia ouvir o canto dos grilos loucos e das cigarras histéricas. Não mais o murmúrio de toda a natureza que abraçava o sanatório. Era o único som que passava. Aquela cantoria louca e esganiçada entrava dentro de todos os loucos e não saia. Ficava vibrando em ondas, formando marolas que logo transbordaram.

As morolas tinham que escapar, o canto dos grilos e cigarras continuava a entrar, as ondas queriam transbordar. Muitos vomitavam suas larvas naquele gramado bem cortado e com raízes ossudas das árvores dançantes. Criavam espaços para acomodar a mudança interna da maré. Outros trancaram sua audição e acabaram perdendo o centro do equilíbrio.

Por dentro de todos eles tinham túneis e cavas que, se abertos, podiam dar vazão as ondas internas criadas pela pressão das bigornas nos ouvidos. Todos tinham as chaves dos túneis.

Muitos abriram. Abriram as portas internas daqueles túneis trancados há tanto tempo. Nunca antes tomaram ar. Cada túnel uma extensão. Cada túnel um porão. Cada porão um calabouço.

As ondas internas entraram naqueles túneis como nunca fizeram antes. Entraram e ocuparam todos cantos, os buracos, os espaços, por completo. Se misturaram inclusive com as moléculas e átomos que estruturavam as paredes que davam forma aos túneis.
Quando todos os espaços estavam completamente tomados pela maré, começou a faltar novamente espaço para ondas, e os loucos abriram os seus porões. As ondas ocuparam novamente os porões. E alguns tiveram também que abrir os calabouços dos porões pra dar vazão a maré.                     

O espaço interno se encheu por completo, os grilos roucos e as cigarras histéricas pararam de ser ouvidas. Porque nesse momento, toda a escuridão dos túneis, porões e calabouços, entrou em contato com a maré, e começou a virar lodo. Um lodo espesso e frio que saiu dos porões e ocupou os espaços da alma.

Frio e escuridão se insurgiram e quiseram reinar por alí. Aquela escuridão úmida, aterradora, empurrou pra fora todas as fagulhas de luz. A escuridão espessa que só deu lugar àquilo intangível e real: a solidão. Nada entrava. O lodo pesado da escuridão tornava difícil respirar, porque pro ar chegar a todas as células, ele tinha que se espremer e fazer muita força pra passar entre o lodo. As vozes dos grilos e cigarras não entravam mais,
porque o som não tinha espaço pra se materializar em ondas.

Aquele lodo começou a cristalizar dentro dos loucos que abriram seus porões, seus túneis e calabouços. Aquela cristalização começou a pesar, como ferro. Começou a
atrair, como um ímã, toda a ferrugem, toda sujeira, toda fagulha de toda escória aterrada nos calabouços dos porões de todos os loucos daquele sanatório. Era o fim. Parecia ser o fim. Aquele ímã começou a formar um centro magnético, como condutor pra organizar as ondas agora magnéticas que puxavam as infra dimensões.

Aquele centro magnético centralizado na alma tomada pelo lodo, como todo centro magnético, tinha dois pólos: um negativo e um positivo. O pólo positivo começou a ascender com a mesma força que o polo negativo. Ele começou as subir e atrair átomos de eletricidade, as fagulhas de luz que eram emitida pela lua e estrelas. A luz que começou a entrar como pequenas, pequeníssimas fibras, aos poucos foi puxando mais luz, mais ar. Por mais forte que a escuridão pareça ser, por mais absoluta, ela tem uma fraqueza inerente a sua existência: qualquer fagulha de luz, por menor que seja, consegue eliminar a escuridão sem importar o tamanho que ela tenha.

Aquelas pequenas fagulhas de luz entravam inicialmente dispersas, mas não demoraram para se agruparem e formarem nuvens e luz. Logo aquelas almas eram metade lodo, metade luz. A parte ensolarada fazia conexão com os murmúrios da natureza, que começavam a ser notados com mais intensidade, embora tivessem um volume sonoro menos generoso que o das cigarras histéricas. Os murmúrios produziam onda sonoras mais tênues, que formavam ondas sutis e independentes dos corpos físicos para se manifestarem.

Aos poucos, cada louco que estava lá foi abraçando a nuvem de ondas sonoras iluminadas, entrando dentro de suas frequências, e empurrando aquele lodo denso e pesado que havia ocupado todos os espaços da alma novamente para seus porões, túneis e calabouços.




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