FALÊNCIA
A falência que encontramos nas pessoas hoje é uma questão muito além da monetária.
Saindo e sentando em bares, ambientes de trabalho, universidades e qualquer outro local de convivência social você percebe que as pessoas estão falidas.
A falência que eu me refiro não é a falta de ter (afinal aparência é quase ter), mas é a falta de ser. SER é quase uma utopia depois das últimas observações que tenho feito. Pessoas perdidas dentro de seus próprios desejos, pessoas que sequer sabem o que desejam. Falam o que já é provado que agradará mas não dizem o que querem. Originalidade zero. Discursos prontos no mesmo formato de seriados mostram que simulação de uma realidade “mais que perfeita” é tão mais atrativa do que a construção de uma vida própria, pautada no real.
Bares esfumaçados, mal cheirosos e com cadeiras balançantes ainda me apetecem muito mais do que casas noturnas com meninas loiras com cabelos esticados e meninos que sabem que só as levarão para casa se tiverem um carro. Bares mal cheirosos estão também cheios de pessoas “originais” de carteirinha. Universitários inebriados pelas suas profissões e recém formados desiludidos que não sabem pra onde mandar seus currículos. Cortes de cabelo de gosto duvidoso e esmalte descascados dão uma certa conformidade que o improvável está aí, que ainda há espaço pra incerto e pro duvidoso se não fosse o fato de que a falência das pessoas também se mostra aí. Pessoas cheias de novos amigos, novos conhecidos, contatos e convites pro mais novo bar da cidade, a mais nova banda e o mais original bazar me parece só uma busca pra consumir entretenimento e padrões de comportamento que mostram o quão vazio todo mundo é de si mesmo e o quanto do mundo externo é preciso pra encher. Encher, encher e encher pra que o pensamento não faça eco no vazio da mente.
A falência das pessoas é notável quando você espera o dia inteiro por um telefonema que não chega, por um abraço frouxo que não se ergue, por um “amigo” que marca hora pra chegar e logo tem que partir da sua casa, por um encontro que você conseguiu e é (mais uma vez) decepcionante.
Você também está falido quando não pensa mais em como atender o seus desejos porque eles dão trabalho demais, ou porque seus amigos te acharão estranho (ou louco) demais.
Você pode decretar a tua falência quando você não cuida do que construiu. Quando nem sequer em construir pensa mais, pegando o atalho do mais fácil e desfilando com modelos pré fabricados que em 2 meses estarão obsoletos na sua vitrine. Quando substitui as pessoas sem ter tentado conquistá-las de verdade. Quando trai por um desejo de ter, quando se esforça pra esconder o que sente ou quando propaga uma modernidade que não tem.
E antes que alguém diga que ninguém está aqui pra suprir minha expectativa eu pergunto: querer encontrar alguém inteligente a ponto de manter uma conversa além das manchetes da Veja e novelas da Globo é esperar demais ?
Nenhum comentário:
Postar um comentário