sexta-feira, 25 de julho de 2008

Tirando a teia de aranha

Não consegui dormir essa última noite.

E toda vez que isso acontece eu começo a ler. Sempre gostei muito de ler, e isso me ajuda a enfrentar as recentes noites de insônia (que não são muitas, só acontecem em ocasiões “especiais”).

Uma dessas noites eu peguei a Lispector para me fazer companhia. Um grande erro. Ler “Perto do Coração Selvagem” é pedir pra ter insônia. Uma escritora aguda, daquelas que machucam a alma às vezes. Mordem e depois assopram. Péssima idéia.

Daí semana passada eu comprei “Noites Brancas”, do Dostoiévski, por 8 pilas aliás (sempre bom avisar né). Em duas noites de insônia acabei com o livro, pq ele é fininho e pequenininho...a história é ótima, um pouco fantasmagórica na minha opinião. Inclusive, como é um livro de bolso, eu deixei ele na minha bolsa por umas 3 semanas. Aproveitava as filas onde eu estivesse (bancos principalmente) e dava a minhas folheadas. Acontece que eu comprei um batom marrom vampiro muito vagabundo, que também andava na bolsa pra cima e pra baixo comigo. E eu não vi que tinha saído a tampinha, e o refil do batom ganhou liberdade dentro da bolsa. Assim ela ficou inteira marrom, e o “Noites Brancas” também. Irônico.

Mas eu estou contando tudo isso pra falar sobre ontem na verdade. Foi aniversário do meu melhor amigo e, assim sendo, fomos todos comer pizza e tomar vinho. E já dizem os antigos: não dê chance ao azar. Não que eu tenha enchido a cara nem nada, mas com certeza seria reprovada no bafômetro da blitz que estava instalado na rua mais insuspeita que eu ia atravessar pra chegar em casa. Ainda bem que deu tempo de mudar a rota antes de ser pega e multada. Mas isso não foi nada, porque a duas quadras da blitz aconteceu um mega acidente. Não que eu tenha parado pra ver, nem fodendo. Mas tinha bombeiro, Siate, polícia e uns 50 desocupados que com certeza deviam estar em tédio existencial pra ver a desgraça alheia às 11 horas da noite num frio de 8 graus. Só que o power acidente aconteceu na rua que primeiro: eu sempre uso pra vir trabalhar e segundo: era a minha rota de fuga da blitz.

Voltei pra casa com aquela sensação de que “podia ter sido comigo”. E eu amo aquela rua. Amo. Ela é estreitinha, daquelas que passam um só carro por vez, tem um monte de árvores floridas, árvores frutíferas e é paralela ao trilho de trem.

Voltei por umas ruas escuras e sem charme nenhum. Impressionadíssima com o acidente e temendo alguma outra blits. Resultado ? Às 3h33 da manhã eu estava na página 53 de “Senhora”, do José de Alencar. Foi a última vez que olhei no relógio, logo depois adormeci. Queria dizer pra galera, Rivotril não é nada ! José de Alencar é o que há !

Sinto que achei o meu autor pras noites de insônia. Acho que ele devia ser daqueles caras que usavam ceroulas e penteavam o bigode com pentes de plástico marrom de R$ 1.00. Ninguém, na literatura mundial, consegue ser mais chato do que ele. Três páginas descrevendo um guarda roupas. Como diz uma amiga minha, “meu pai querido.....”

Esses dias eu achei lá em casa um “Iracema”, edição 1972, com as páginas em cor amarelo gema de ovo escuro, intacto. Deve ter sido dos meus pais. Daqui a pouco eu vou sair pra almoçar e procurar “O Guarani” em algum sebo. “Lucíola” também vale. Do jeito que minhas noites andam insones, eu posso precisar de uma dose cavalar. Melhor me precaver.



Um comentário:

Li disse...

hahaha, muito bom! Olha que Lucíola é até legal, embora eu nunca tenha passado da página 23 (eu tbm sempre durmo antes).