quinta-feira, 10 de junho de 2010

CIDADE IMÓVEL. VERÃO 83

Minha crise criativa está quase chegando ao fim, eu sinto isso. Durante ela eu mergulhei na minha droga preferida, a literatura. Tão viciante quanto heroína, disse o Iggy Pop (acho que foi ele, não tenho certeza).

Mas vou transcrever um trecho massa de um livro a fudê de bom que eu lí esses dias:

"Era uma vez o amor mas tive que matá-lo":

A gente se mete a escrever porque não foi capaz de bater num motorista que nos afrontou na rua, porque não quebrou pratos num restaurante, porque não enfrentou um policial louco que afrontou sua namorada, porque não disse à mãe o muito que a amava e detestava, porque não cuspiu num professor que disse que a terra era redonda, porque deixou que pegassem seu lugar na fila do cinema, porque não tem ofício nem benefício, porque pensa que é uma forma fácil de fazer fama e dinheiro...

A gente se mete a escrever porque uma garota linda lhe disse que gostava de escritores, porque precisa de um álibi para não trabalhar, porque isso o faz sentir-se superior, porque leu uns romances de caubóis e quer entrar na concorrência, porque é um caubói sem oeste, porque escrituários como Vargas Llosa o fazem, porque não tem voz, porque não ritmo, porque está farto de bater punheta, porque quer trepar com uma mulher mas não sabe como, porque pensa que tem alguma coisa a dizer, porque descobre que as garotas bonitas dizem que os escritores são ternos mas saem com mafiosos...

A gente se mete a escrever porque não sabe lutar boxe, nem tem colhões para isso, porque tem os dentes tortos e não pode sorrir como gostaria, porque para os impotentes de todo o tipo não há outro caminho, porque todos os feios escrevem ou assassinam e a gente não é capaz de matar nem uma mosca...

O bom é que escrever não serve para nada daquilo que a gente quer. Escrever é um limite, uma dor, um defeito a mais. O bom é que depois de escrever a gente se sente péssimo. Nada mudou, tudo continua no seu lugar.


Do livro "Era uma vez o amor mas tive que matá-lo", Efraim Medina Reyes

6 comentários:

Juliana Felipe disse...

Sensacional esse livro. Estou lendo agora.
Ácido, realista, duro, poético.

Como eu.
Como a vida.

Bitocas...

Lili disse...

Lembra um vídeo que rola na Internet "era uma vez o amor" :P
hehe, comentários banais à parte, LEGAL! Deu vontade de ler mais.

Anônimo disse...

POr favor me manda ele em pdf

Gabyhugh@gmail.com

Emanuela disse...

me manda ele em pdf por favoooooorrr

manuhmnzs@gmail.com

obrigada!

Caroline Caron disse...

Gente, se eu tivesse esse livro em PDF, encaminharia com certeza. Mas esse é raridade :p

Rhayane disse...

Oi por favor me manda em pdf? sou louca para ler ele!
Rhayane70@hotmail.com