quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobre as árvores

"As árvores jovens têm a sua beleza. Mas, sendo jovens, não têm estórias para contar. Não se pode assentar à sua sombra, suas copas oferecem pouco lugar para os pássaros e seus galhos não são fortes o bastante para que neles se amarrem balanços. "Olhe estas velhas árvores. Quanto mais velhas mais amigas ..." - dizia Bilac. Isso, isso mesmo. As árvores são amigas. Estão sempre fielmente no mesmo lugar, à espera. E se não comparecermos, elas continuarão lá, do mesmo jeito. E sem nada dizer. E jamais se vingam. É só olharmos para elas com a cabeça vazia de pensamentos para sermos possuídos por uma imensa tranquilidade."

Mais ainda: “As árvores sabem que a única razão da sua vida é viver. Vivem para viver. Viver é bom. Raízes mergulhadas na terra, não fazem planos de viagem. Estão felizes onde estão. Enfrentam seca e chuva, noite e dia, frio e calor, com silenciosa tranquilidade, sem acusar, sem lamentar. E morrem também tranquilas, sem medo. Ah! Como as pessoas seriam mais belas e felizes se fossem como as árvores!” Olhando para as árvores, tive por um momento a ideia de que Deus é uma árvore em cuja sombra nós, crianças, brincamos e descansamos.

Pura generosidade sem memória..,

Rubem Alves- O Amor que Acendia a  Lua

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Sombra da montanha

A montanha era gigantesca. Solene, muito bem centrada e avizinhada a uma cadeia de montanhas menores. Avançar em seus degraus de prata era um confronto consigo mesmo: vencer o peso do próprio corpo, vencer as pedras gigantes que se interpunham no caminho, vencer as raízes desossadas das árvores que eram testemunhas ajudantes daquele esforço colossal.

A sombra volúvel que a montanha proporcionava era instigante. Mudando a direção de sua projeção conforme a rotação intermitente do sol, nuances que se esvaem e têm sua forma alterada. Aquela sombra gigantesca era ampliada proporcionalmente a altitude da montanha. Ajudava a expandir o pensamento sem estreitá-lo em uma forma fixa. Ajudava o pensamento a caminhar por onde não havia formas pensamentos, o deserto do nada. Quem a contemplava com serenidade, encontrava lá um terreno psíquico muito fértil. Daqueles que qualquer semente jogada logo arrebentava em broto na escuridão.


Aquela sombra instável desencaixava todas as formas pensamento e as virava do avesso. O caminhante no cume da montanha banhava sua alma com os raios do mais puro sol, e projetava o brilho nos subterrâneos da sombra. Construía túneis como um rato, fazendo conexões com os canais de luz que irrigavam toda aquela penumbra, interligando todos os aspectos que por hora estejam desagregados, oferecendo um padrão muito firme de sustentação a todos eles.

Adentrar aquela penumbra era o verdadeiro desafio do caminhante. Porque a montanha era imóvel e imutável, mas a sombra se expandia o tempo todo, e somava-se as sombras das outras montanhas ao redor. Achar a sedimentação interna dentro aquela penumbra era achar a centralização da montanha. Tudo está centrado dentro. É andar nos vales, nos precipícios e transpor toda a escuridão com o farol da alma. Ir pro deserto do pensamento e somente ser. E viver para viver ainda mais. Aprofundar este estado da existência torna o vínculo com a natureza uma fusão com a divina essência da vida. De toda a vida que pulsa eu seus ciclos ao redor.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Ensaio sob o silêncio

Converse devagar. Saboreando o som e significado das palavras.

Preste atenção aos acordos que as palavras fazem, para ter validade posterior.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Viver

'Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, tão caro é viver; e tampouco queria praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessário. Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida, recorta-lhe um largo talho e passar-lhe rente um alfanje, acuá-la num canto e reduzi-la a seus termos mais simples e, se ela se revelasse mesquinha, ora, aí então eu pegaria sua total e genuína mesquinharia e divulgaria ao mundo essa mesquinharia; ou, se fosse sublime, iria saber por experiência própria, e poderia apresentar um relato fiel...'


- Henry David Thoreau
Walden

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Calabouço


Era um sanatório muito engraçado, não tinha teto, só tinha a mata.
Os carcereiros eram grilos roucos e cigarras histéricas que faziam juntos uma sinfonia sem tréguas por toda madrugada.

A mata fechada envolvia a todos no sanatório. Os loucos ficavam reunidos juntos em uma clareira espaçada, com árvores balançantes com raízes ossudas, grama bem cortada e um pequeno lago.
Montanhas ao fundo abraçavam a mata. A lua e as estrelas assistiam a tudo bem instaladas nos seus camarotes, interessadas em tudo o que se passava lá em baixo.

As árvores balançantes e dançantes que formavam os bosques eram sadias e solenes. Nem todas eram altas, mas todas eram fortes. Algumas eram imperadoras, já completamente crescidas e formadas, outras em desenvolvimento, mas todas dentro da perfeição da natureza. Muitas trocavam as cascas dos troncos quando chegavam no ciclo de troca. O vento soprava suave pelo vale. Pequenas folhas por vezes se desprendiam delas e deslizavam até a grana bem cortada.

A grama bem cortada deixava expostas as raízes ossudas das árvores. E por ela foram se formando através dos passos, caminhos batidos. Os animais que habitavam o vale tinham todos pequenas perfeições-imperfeitas. Espécies nativas de passarinhos faziam ninhos nos galhos roliços das árvores. Minhocas e mosquitos eram abundantes durante todo o tempo. Os passarinhos eram os mais engraçados de observar, com suas brigas entre sí. Bicavam-se perto dos ninhos, saiam voando, correndo um atrás do outro. Os cachorros marcavam seus territórios, e os gatos circulavam observando tudo sem se envolver com nada. Toda aquela natureza pulsava e murmurava discretamente, o que contrastava com a atuação dos carcereiros.

Os grilos roucos e as cigarras histéricas eram os guardas vigilantes daquele sanatório. Se revezavam na sua cantoria, mas muitas vezes entravam juntos, em soneto. E não davam trégua até clarear o dia.

Os loucos que estavam lá, carregavam consigo as chaves dos seus próprios túneis, porões e calabouços. Mas eles nunca achavam as chaves. Muitos nem sabiam que as tinham.
Alguns só descobriam estas chaves e os subterrâneos que elas abriam quando as cigarras e grilos se colocavam a cantar. Aquele canto estridente vibrava no final do ouvido, despertando a parte surda, e funcionava como uma bigorna apertando todos os ouvidos. Tinha quem gritasse, tinha quem gemesse, tinha quem chacoalhasse, mas eles, os loucos, não sentiam dor.

Eles não sentiam dor. Sentiam que a bigorna pressionava seus ouvidos e apertava o centro da audição. Aperta tanto que afunilava o que se podia ouvir. E só se podia ouvir o canto dos grilos loucos e das cigarras histéricas. Não mais o murmúrio de toda a natureza que abraçava o sanatório. Era o único som que passava. Aquela cantoria louca e esganiçada entrava dentro de todos os loucos e não saia. Ficava vibrando em ondas, formando marolas que logo transbordaram.

As morolas tinham que escapar, o canto dos grilos e cigarras continuava a entrar, as ondas queriam transbordar. Muitos vomitavam suas larvas naquele gramado bem cortado e com raízes ossudas das árvores dançantes. Criavam espaços para acomodar a mudança interna da maré. Outros trancaram sua audição e acabaram perdendo o centro do equilíbrio.

Por dentro de todos eles tinham túneis e cavas que, se abertos, podiam dar vazão as ondas internas criadas pela pressão das bigornas nos ouvidos. Todos tinham as chaves dos túneis.

Muitos abriram. Abriram as portas internas daqueles túneis trancados há tanto tempo. Nunca antes tomaram ar. Cada túnel uma extensão. Cada túnel um porão. Cada porão um calabouço.

As ondas internas entraram naqueles túneis como nunca fizeram antes. Entraram e ocuparam todos cantos, os buracos, os espaços, por completo. Se misturaram inclusive com as moléculas e átomos que estruturavam as paredes que davam forma aos túneis.
Quando todos os espaços estavam completamente tomados pela maré, começou a faltar novamente espaço para ondas, e os loucos abriram os seus porões. As ondas ocuparam novamente os porões. E alguns tiveram também que abrir os calabouços dos porões pra dar vazão a maré.                     

O espaço interno se encheu por completo, os grilos roucos e as cigarras histéricas pararam de ser ouvidas. Porque nesse momento, toda a escuridão dos túneis, porões e calabouços, entrou em contato com a maré, e começou a virar lodo. Um lodo espesso e frio que saiu dos porões e ocupou os espaços da alma.

Frio e escuridão se insurgiram e quiseram reinar por alí. Aquela escuridão úmida, aterradora, empurrou pra fora todas as fagulhas de luz. A escuridão espessa que só deu lugar àquilo intangível e real: a solidão. Nada entrava. O lodo pesado da escuridão tornava difícil respirar, porque pro ar chegar a todas as células, ele tinha que se espremer e fazer muita força pra passar entre o lodo. As vozes dos grilos e cigarras não entravam mais,
porque o som não tinha espaço pra se materializar em ondas.

Aquele lodo começou a cristalizar dentro dos loucos que abriram seus porões, seus túneis e calabouços. Aquela cristalização começou a pesar, como ferro. Começou a
atrair, como um ímã, toda a ferrugem, toda sujeira, toda fagulha de toda escória aterrada nos calabouços dos porões de todos os loucos daquele sanatório. Era o fim. Parecia ser o fim. Aquele ímã começou a formar um centro magnético, como condutor pra organizar as ondas agora magnéticas que puxavam as infra dimensões.

Aquele centro magnético centralizado na alma tomada pelo lodo, como todo centro magnético, tinha dois pólos: um negativo e um positivo. O pólo positivo começou a ascender com a mesma força que o polo negativo. Ele começou as subir e atrair átomos de eletricidade, as fagulhas de luz que eram emitida pela lua e estrelas. A luz que começou a entrar como pequenas, pequeníssimas fibras, aos poucos foi puxando mais luz, mais ar. Por mais forte que a escuridão pareça ser, por mais absoluta, ela tem uma fraqueza inerente a sua existência: qualquer fagulha de luz, por menor que seja, consegue eliminar a escuridão sem importar o tamanho que ela tenha.

Aquelas pequenas fagulhas de luz entravam inicialmente dispersas, mas não demoraram para se agruparem e formarem nuvens e luz. Logo aquelas almas eram metade lodo, metade luz. A parte ensolarada fazia conexão com os murmúrios da natureza, que começavam a ser notados com mais intensidade, embora tivessem um volume sonoro menos generoso que o das cigarras histéricas. Os murmúrios produziam onda sonoras mais tênues, que formavam ondas sutis e independentes dos corpos físicos para se manifestarem.

Aos poucos, cada louco que estava lá foi abraçando a nuvem de ondas sonoras iluminadas, entrando dentro de suas frequências, e empurrando aquele lodo denso e pesado que havia ocupado todos os espaços da alma novamente para seus porões, túneis e calabouços.




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bytes de ilusões

Um dia ainda vamos sentir falta de quando existiam brigas entre manos e emos.
Assim como sentíamos falta de quando os meninos de rua cheiravam cola e não existia o crack dominando as ruas.

As brigas hoje são feitas por bytes entre trolls e fakes. Nada mais óbvio, para um geração engessada que se expressa por 140 caracteres e hashtags de ordem. Uma geração de 'vedores', e não mais de leitores. Vedores que ''vêem' as manchetes e não lêem as notícias. Que compartilham imagens lindas com frases a fudê porque é o que dá audiência.

Muitos assumem as expressões com o sustenido na frente pra ir direto ao ponto. #ficadica

O ponto. Que ponto?

Logo não teremos mais grafologias. Examinamos o jeito dos dedos nos teclados, os espaços e reticências.

Se no mundo real o véu das ilusões deixa a nossa realidade embaçada, na internet que a comunicação não verbal não tem como ser analisada, estamos todos em rede, ansiosos para publicar ao alcance de todos coisas sobre nós mesmos que componham uma
'imagem certa', de acordo com o que as nossas projeções querem que façamos.

As verdades internas não são nem investigadas, porque estamos todos vivendo um rascunho das nossas vidas, esfarelando nossas projeções em bytes a espera de aprovação, aplauso, audiência. A irrelevância do agora. 

E somos adultos. Crescemos no meio analógico e só entramos em contato com o ambiente digital no final da nossa adolescência. Somos on e off ao mesmo tempo, sem ser nada de concreto pra nós mesmos.

Um pouco de amargura digital pra todos vocês.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Acampamento interno

Você não sente fome quando o espírito se contrai. Aquilo tudo, aquela intensidade de vida acumulada. Estar na estrada correndo e ultrapassando até encontrar o vácuo na direção contrária e sentir urgência da fome.

Se tornar na aparência sem ser na essência. Continuamente desejar sem ser satisfeita. Sei que cansei até dos meus vícios. Ordinários e banais. Cansei de estar entre aquela gente comum até demais...


Cada coisa em sí é imperecível, ao mesmo tempo que em nossas mãos todas as coisas tornam-se nada.

Longe de casa há tanto tempo, decidi me afastar para fazer um acampamento interno. Me afastar da vida que eu tinha vergonha de estar vivendo. Tentar entender aquela dor espessa que invade a alma e transborda tudo o que deve ser jogado fora.

Aí então, assentar. Esperar que com a sedimentação venha um espaço interno tão radiante e luminoso que seja possível alcançar o centro. Centralizar. Ser o que se é.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

A vida é a arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” – Vinícios de Morais

A caminhada é eterna. E quando a gente começa a se encontrar, acaba achando outras pessoas que também estão se encontrando.

Quando a gente se encontra a gente entende que se for pra onde o vento te leva, nunca
teremos firmeza de nada. Nem certezas. Embora perder-se também seja um caminho.

A gente é a mudança e o eterno ao mesmo tempo. Tudo muda. E é muito fácil correr pro caminho da mudança quando se reconhece que até então a vida que se viveu não floresceu. A vida muda o tempo todo, mas a alma é eterna, ela está além da mudança, das circunstâncias que nos colocam como um fantoche do acaso.

Todos nós temos a cura e o veneno dentro de nós mesmos. E quando começamos a jorrar o veneno pra fora da gente, damos espaço pra cura.

O redemoinho se forma porque as vezes é como se pisássemos no acelerador e freio ao mesmo tempo. Porque as indefinições e incertezas estão tão presentes que não conseguimos perceber a densidade da energia do conflito.

E nessa de falar, falar e não dizer nada, sei que quando se está integralmente com você, você está com Deus. Seja o melhor que você puder pra sua alma, e assim conseguirá lapidar os rochedos ao seu redor.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Confiança

Limpeza.
Sumir com tudo o que foi jogado fora
Tacar fogo agora
Organizar todo os espaços
Erguer os ombros e o olhar
Lixar as arestas
Alinhar a alma
Caminhar e se aprumar
limpar as janelas
Decantar e então, transbordar
Reavaliar o que está ao redor
olhar e observar
Olhar
Observar

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Emsimesmada

É tão bom ocupar-se da gente mesmo que o risco é ficar "emsimesmada"

Emsimesmada vc fica quando está mergulhada em toda a delícia de ser quem você é e desfruta da intensidade da sua alma dourada.

Momentos. A gente sabe que a vida é feita de uma sequência ordenada deles.

As vezes parece que as ampulhetas que marcam o tempo escorrem não com grãos de areia,
mas sim, de pimenta. De tanta ardência que os momentos provocam. As vezes a pimenta só realça o sabor dos alimentos Em outras ela tras lágrimas aos olhos.

Viver é uma delícia mas não é fácil. E se fosse fácil não teria graça.

Seja quente ou seja frio, mas não seja morno que eu te vomito, já disse...quem mesmo?

Então eu digo adeus porque vou partir, estou em viagem pra dentro de mim. De Oaxaca a Sibéria. As dualidades todas que me aguardem, pois os véus estão caindo e a batalha está apenas começando.

sábado, 25 de junho de 2011

Personagens da literatura - Roupas

Adoro encontrar descrições do vestuário das personagens nos livros que eu leio. Sempre me chama a atenção e me dá uma sensação diferente. Tudo começou há 5 anos, com a seguinte passagem no livro "O casaco de Marx", de Peter Stallybrass:

"Se eu vestia a jaqueta, Allon me vestia. Ele estava lá nos puimentos do cotovelo, puimentos
que no jargão técnico da costura são chamados de “memória”. Ele estava lá nas manchas que estavam na parte inferior da jaqueta; ele estava lá no cheiro das axilas. Acima de tudo, ele estava lá no cheiro."


Desde então eu vim separando todos os trechos de roupas na literatura que me chamaram a atenção, e agora vou dividir com vocês.

"Perambulei pelos cabarés deprimentes da Curtis Street; garotos em jeans e camisas vermelhas; cascas de amendoim, marquises de cinema, estandes de tiro ao alvo."
Jack Kerouak, On the road, p. 64

"Roy Johnson e eu caminhamos na garoa; fui à casa da namorada de Eddie recuperar minha camisa de flanela xadrez, aquela de Shelton, Nebraska. Ela estava lá, cheia de nós, toda a imensa tristeza de uma camisa."
Jack Kerouak, On the road, p. 65

"Usava um chapéu grande e negro, como as asas estendidas de um corvo, e um casaco de veludo patinado pelo limo dos séculos" Gabriel Garcia Marquez, 100 anos de Solidão, p.07

"sua aparênciaseria até impressionante se nao fosse o modo geral desmazelado, imundo e orripilante. Vestia como roupa de estar em casa à vontade, uma usada sobrecasaca que além de mostrar o forro puído tinha os cotovelos esburacados. Nos recintos fechados ele fedia um pouco a vodca, mas os seus modos eram teatrais e solenes. Traía um cioso desejo de ostentar dignidade." Dostoiévsky, O idiota, p.103"

"Peguei aquele objeto amarrotado em minhas mãos, muito a contra gosto. Era um chapéu comum; preto, de feltro, redondo e muito usado. O forro era de seda vermelha, mas estava muito desbotado. Não havia etiqueta de fabricante, mas, como Holmes observara, as iniciais H.B estavam rabiscadas no forro. O chapéu estava perfurado, na aba, para utilização de um prendedor, mas não havia sinal do elástico. De resto, estava rachado, coberto de pó e manchado em diversos locais. Seu dono tentara cobrir alguns pontos desbotados com tinta preta" Conan Doyle, Sherlock Holmes - O roubo da coroa de berilos, p. 09

"Sua magestade envergava um magnífico uniforme militar, rígido, com rendas douradas e bordados, enquanto sua cabeça raspada se escondia debaixo de um enorme chapéu de três bicos,  que ostentava ondeantes plumas de avestruz" Herman Melville, Taipi, p. 19

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Liquida estoque especial de inverno

Adoro uma promoção, dessas que você junta rótulos e participa de um sorteio.

Eu já tive várias bandas, mas nenhuma deu certo até agora.

Esperança é a última que morre.

Assisti "Esqueceram de mim" mais de 100 vezes, "Goonies" e "Curtindo a Vida Adoidado" também.

Eu completei o álbum Ping- Pong Amazônia e Pantanal.

Tenho muito medo de ir ao dentista.

Gosto muito de ler e escrever. Na verdade eu sou nerds, mas eu acho que disfarço bem.

Eu gosto de Curitiba, menos quando faz frio.

Gosto demais de ficar sozinha.

Eu fui vegetariana por 5 anos, e vegan por 9 meses.

Gosto de saber que signo você é.

Nunca tive boneca Barbie, mas adorava brincar de comidinha.

Eu não sou medrosa, mas sou meio fresca.

Tenho muito mais medo de ir ao dentista e a médicos do que você imagina.

Eu vou plantar tomates este ano, quando chegar a época.

Eu tenho medo de cachorro.

Adoro contar piada.

Sempre quis um trabalho que eu sujasse as mãos. Mas que não tenha sangue.

Quem leu até aqui me deixa um comment que vai ganhar um chokito, ou um suflair.

Adoro escrever carta.

Adoro ouvir os outros.

Eu toco bateria, mas meio mal. Eu gosto de cantar, mas canto mal. Dançar então nem se fala. Mas foda-se.

Eu sou feliz.

Eu sei dançar funk.

Gosto de andar de skate mas muito mais de patins.

Um dia eu vou ter um caiaque.

Adoro as normas da ABNT.

Meu pai tem uma biblioteca, que também será minha.

Eu sou da bagaça.

Isso não é tudo, mas também não é nada.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

CIDADE IMÓVEL. VERÃO 83

Minha crise criativa está quase chegando ao fim, eu sinto isso. Durante ela eu mergulhei na minha droga preferida, a literatura. Tão viciante quanto heroína, disse o Iggy Pop (acho que foi ele, não tenho certeza).

Mas vou transcrever um trecho massa de um livro a fudê de bom que eu lí esses dias:

"Era uma vez o amor mas tive que matá-lo":

A gente se mete a escrever porque não foi capaz de bater num motorista que nos afrontou na rua, porque não quebrou pratos num restaurante, porque não enfrentou um policial louco que afrontou sua namorada, porque não disse à mãe o muito que a amava e detestava, porque não cuspiu num professor que disse que a terra era redonda, porque deixou que pegassem seu lugar na fila do cinema, porque não tem ofício nem benefício, porque pensa que é uma forma fácil de fazer fama e dinheiro...

A gente se mete a escrever porque uma garota linda lhe disse que gostava de escritores, porque precisa de um álibi para não trabalhar, porque isso o faz sentir-se superior, porque leu uns romances de caubóis e quer entrar na concorrência, porque é um caubói sem oeste, porque escrituários como Vargas Llosa o fazem, porque não tem voz, porque não ritmo, porque está farto de bater punheta, porque quer trepar com uma mulher mas não sabe como, porque pensa que tem alguma coisa a dizer, porque descobre que as garotas bonitas dizem que os escritores são ternos mas saem com mafiosos...

A gente se mete a escrever porque não sabe lutar boxe, nem tem colhões para isso, porque tem os dentes tortos e não pode sorrir como gostaria, porque para os impotentes de todo o tipo não há outro caminho, porque todos os feios escrevem ou assassinam e a gente não é capaz de matar nem uma mosca...

O bom é que escrever não serve para nada daquilo que a gente quer. Escrever é um limite, uma dor, um defeito a mais. O bom é que depois de escrever a gente se sente péssimo. Nada mudou, tudo continua no seu lugar.


Do livro "Era uma vez o amor mas tive que matá-lo", Efraim Medina Reyes

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Jovens, envelheçam !

Título do Nelson Rodrigues.

Não que eu seja muito fã dele, mas nada mais agradável do que essa frase.

Espero mesmo que eu envelheça. Espero que pare de perder tempo com coisas e pessoas inúteis. E ter dúvida se estou fazendo o que quero estar fazendo. Que consiga discernir com mais rapidez o que realmente importa, e não mais me enganar por coisas tão bobas. Espero ser menos inteligente e mais esperta. E escrever melhor.

Me sinto muito jovem ainda. Sequer sei o que estou fazendo a maior parte do tempo. Pelo menos não sou do tipo que se deixa levar, mas mesmo assim a interrogação está sempre ao meu redor. E não é uma interrogação de questionamento sempre (esta também está sempre por perto).

Tenho uma amiga que diz sempre que vai morrer aos 29 anos. Eu quero chegar até os 100. Quero passar por todas as fases que eu imagino que uma vida longa tenha...as mudanças de prioridades, de atividades, de felicidade.

Mas é claro que quero chegar até lá na base de muito vinho, uísque e conhaque. Ter meu próprio alambique e produzir o “sussurro na morte”, o mesmo elixir que o Jim Dodge. E ter minhas próprias empresas. Aprender a pilotar avião e a falar russo. E ter muitas rugas pra mostrar na cara o que vivi.

Quero começar a escrever de verdade com 70 anos. E ter o que dizer, coisas que façam alguma diferença. E saber pelo menos terminar o que comecei.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Nomes

Ao longo dos meus anos eu desenvolvi uma relação com nomes que vou revelar aqui pra vocês.

Eu me chamo Caroline, e minha mãe escolheu meu nome por causa de uma novela que era transmitida na época. Nem quis saber qual, e achei um ultraje, ainda mais eu que gosto tanto da diferenciação. Se eu pudesse escolher, gostaria de me chamar Bruna. Simples e lindo, duas sílabas. Apesar que todas as que eu conheci eram umas perdidas...

Assim como as Déboras são irritantes. Andressas são mimadas. Marianas são sempre muito legais. As Vanessas também são ótimas, mas aqui eu incluo uma excessão (afinal, eu não guardo isso aqui de mágoa daquela filha da puta, já disse Maria Botânica).

Sílvias precisam de atenção e Lucianas são carentes. As Danis são muito tagarelas, as Paulas elegantes e as Adrianas são sempre muito engraçadas.

Alines são guerreiras e Rafaelas são quietinhas. Fabíolas são altas, Cláudias baixinhas e magrinhas. Fabianas são muito inteligentes, mas as espertas mesmo são as Julianas. Melissas são expontâneas e assim como as Evelyns. Todas as Evelyns são muito bonitas e muito expontãneas. Heloisas são muito gente boa, mas as Heloises são parecidas com as Déboras.

Larissas são encantadoras, Thaises são tímidas, Thalitas são especiais. Paolas são lindas e Simones têm jeito de menina, não importa que idade tenham. Janainas são meio mongas e gostam de usar topete nos cabelos. Jéssicas são quietinhas no começo e se soltam com o tempo.

E é isso. Antes que alguém pergunte, não, eu não tenho nada pra fazer.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O caminho do bem

Sempre gostei de hospitais. Muito mais por causa dos livros do Robin Cook e seriados tipo Grey´s Anatomy e Plantão Médico que pelo cheiro de remédio morno que fica no ar. Mas no 2° grau ficou muito óbvio que eu era um zero a esquerda em química e biologia, não teria como levar adiante minha decisão de ser médica.

Claro que a gente sempre dá um jeitinho, e arranjei um jeito de estar dentro do ambiente hospitalar: sendo voluntária. A faculdade onde eu estudei tinha um projeto de voluntariado, e eu me inscrevi em dois hospitais dignos de uma programa tipo "Cadeia na TV" . Tenho uma coleção de histórias tétricas pra contar. Das tristes as engraçadas.

Depois que me formei, fui com uma amiga preencher a ficha de inscrição pro Pequeno Príncipe. Trinta minutos esperando, 3 vias de ficha de inscrição protocolo (deve ter sido algum virginiadno que elaborou) e....nunca chamaram a gente. Acontece, né ?

Três anos atrás, eu fui toda inspirada no Hemobanco me cadastrar como doadora de medula. Aproveitei que ia ao médico e pedi dispensa do trabalho (porque pra doadores de medula eles só recolhem as doações em horário comercial, pra facilitar sabem), depois da consulta passei lá e...nunca acharam um receptor compatível comigo.
Ultimo sábado antes das minhas férias eu ponho o despertador pras 8h30. Minhas irmãs passariam na minha casa às 9, pra tomarmos café e irmos as 3 cajazeiras fazer o que ? Doar sangue.

Como somos um trio de doadoras universais (O negativo) nada mais lindo do que começar o ano fazendo uma boa ação, visto que é uma época cujos bancos de sangue diminuem (e muito) seus estoques. Além do que, Jesus devia estar vendo e anotando pontos né ?

Pois bem. Naquela semana eu tava com infecção na garganta, 2 caixas de pastilha, 2 dias sem voz nenhuma. Não pude doar meu sanguinho universal, e ainda tive que acudir uma das minhas irmãs pimpolhas que teve a finesse de desmaiar logo depois da coleta. Em uma outra tentativa, a identidade por azar não estava dentro da carteira, e logo o sangue sem documento não foi recolhido.

Por que estou contanto tudo isso ?

Porque quero tornar público que eu estou tentando ser uma pessoa melhor. E ficar no caminho do bem, invalidar meus pecados...mas tá difícil. Jesus tá vendo que eu estou tentando, mas como dizem, o inferno tá cheio de boas intenções.

Talvez seja um sinal. A Zilda Arms, uma das grandes e raras almas nobres desse mundo, morreu no Haiti participando de uma missão em prol de causas humanitárias. Marcelo Yuka, baterista do Rappa, ficou paraplégico ajudando a vítima de um assalto. É, acho que é um sinal mesmo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Raspas e restos me interessam





“passara algumas tardes conversando com minha tia, enquanto ela trabalhava num grande tapete tecido com retalhos de todas as roupas que minha família usara durante anos, e agora o tapete estava concluído e estendido no chão do meu quarto, tão complexo e tão rico quanto o próprio passar do tempo...” (On the Road, p.177)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Glamour tarja preta

Aposto que todo mundo vai meio que se identificar com este texto.


Porque é assim: quarta-feira, conversando com uma das minhas amigas F.F.F (Fofa, foda e favorita) ela me sai com a seguinte (e maravilhosa) frase - com potencial de jargão: glamour tarja preta.


Glamour tarja preta é o que a gente encontra muito facilmente nos anos 2000: hiperatividade, bipolaridade, anorexia, bulimia, síndrome do pânico, depressão e etc e tal. Dá-lhe Rivotril, Aiprazolam, Relaxil. Dá-lhe.


E eu estou aqui pra falar que: puta que o paril, que saco heim. Qual é a de vocês ? Além de todo mundo ter que trabalhar, conviver com crise financeira, trânsito, assalto, filas, contas a pagar, gripe do porco, ausência de crédito no celular e saldo na conta bancária, ainda têm vocês. Vocês que se acham mais sensíveis e, talvez por isso, acham que sentem as dores do nosso tempo com mais intensidade do que os demais. Vocês que sem a menor cerimônia (e constrangimento) agem conforme manda o seu umbigo e dane-se se por acaso, machucar quem estier do lado. Afinal, são bipolares.


Quem não conhece uma galera assim ? Já fiz a pergunta colocando uma "galera", porque uma pessoa é pouco.


Tá certo que a tendência é a tarja preta (eu ainda prefiro a faixa preta). Tá certo que a hipermodernidade e a exposição que as novas mídias nos dão fizeram com que todos esses transtornos deixassem de ser íntimos. Tá certo. Mas tá um saco.


Eu acredito mesmo que a vida passa rápido, que a gente se estressa muito e que pessoas que queiram viver são poucas. São raras. Fico muito "deprimida" quando sinto que estou vivendo bem menos que eu gostaria, porque as pessoas ao meu redor estão mais concentradas nas suas tarjas pretas do que na vida. Me irrita muito quando eu só quero me divertir e topo com gente que sofre por opção. Ou usa essas desculpas esfarrapadas pra usar sua sensibilidade de hipopótamo grávido (e com cãimbra) pra justificar suas atitudes centradas no seu bel prazer.


Enfim, glamour tarja preta é o que comanda atualmente. E se vocês quiserem ler um texto realmente decente sobre o tema, escrito por uma escritora de verdade, acessem o blog da minha amiga F.F.F, Vanessa Rodrigues: www.meusecadornaofunciona.wordpress.com .

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Há menos beleza num salão de beleza

Eu odeio salão de beleza. Nunca consegui ir a um e me sentir bem lá dentro. Odeio aquelas conversas de mulhersinha, aquelas revistas, aquele cheiro. Principalmente o cheiro de spray pra cabelos, algo inconfundível, que só um salão brasileiro tem.

Mas o que complica é que eu sou vaidosa. E esse meu ódio me levou a ser independente e autodidata para suprir minhas vaidades. Faz 2 anos eu comprei uma navalha pra cortar os meus cabelos. Não que eu faça cortes retilíneos. Mas o que me ajuda é sem dúvida a moda dos cortes assimétricos que, espero eu, demore a passar.

Mas assim como, no mesmo dia em que eu disse que deveriam pintar faixas amarelas sinalizantes nas duas apagadas lombadas do caminho do meu trabalho (e as lombadas apareceram pintadas), eu odiar salão de beleza me fez ficar com uma sobrancelha igual ao do Jader Barbalho e ter mãos de lavradora.

A gente paga com a boca né?

Então, eu tive que me render. O cabelo assimétrico vá lá. Meu cabelo cresce igual xuxu na serra. Então mesmo que eu corte errado, em duas semanas, ele brota novamente. Mas as unhas eu não consigo deixar com aquela cara de “fiz no salão”. Eu só usava cor de mulhersinha, porque os defeitos apareciam menos. Mas cor de mulhersinha não combina comigo. A sobrancelha de Jader Barbalho (ou Claudio Ohana, tanto faz a cafonice)também não.

Pra largar essa vida de baranga, eu tive que me render. Tive que freqüentar salões. Tenho lido mais a revista Contigo do que a Bravo! Eu confesso. Confesso também que eu já tentei usar óculos pra parecer intelectual. Só não usei porque o médico disse que eu não estava errando as letras certas. Mas eu adoro Almodovar e literatura russa desde meus 14 anos. Hitchcock desde meus 16. Sei citar vários filmes que atores como Jhonny Deep e diretores como Tim Burton fizeram. Sei também vários livros e autores importantes. Então, eu ainda consigo me garantir em certos ciclos.

Mas voltando a problemática da retórica feminina na sociedade do espetáculo, eu estou pra conhecer um homem que entenda uma mulher. Mas entenda a fundo mesmo. Que consiga relacionar o universo feminino com o que acontece na moda e no futebol, na política e na novela, que consiga responder verdadeiramente o porquê uma mulher come dois X salada com 1 coca light. Porque acho que não deve existir mais nada que seja exclusivamente “para homens” ou “para mulheres” (com exceção, talvez, do banheiro). E confesso que prefiro assim. Confesso (acho que agora que eu tenho quase 30, tudo bem se eu admitir certas coisas né?) que eu adoro um homem bonita. E adoro uma mulher bonito. Assim como a falta de concordância, a mistura de gêneros me agrada.

Acabei de contar 46 linhas. Acho que deu o post.

terça-feira, 28 de julho de 2009

.pele.

Inseguranças / incertezas
nossos corpos pele e cabelo para reformar disfarçar, esconder
nossa ótica irreal
aparências homogenias, marcas tão iguais

Aumente o seu pênis e aplique o seu botox, silicone nos seus seios não há nada original
está tudo tão igual todo molde é vendido e copiado
eu provei e aprovei vou passar no crediário

As tuas roupas, tão legais, costuradas por escravos, de (pele) amarela e olhos puxados.
quantas peças você tem ? pessoas falidas na sua via os cabides e as medidas ?

Me adicione no orkut para todo mundo saber o perfil que você tem tem, que pessoas você anda, que ibope você vê. youtube dita agora o novo hit de verão, clique aqui para acessar, comentar e enviar o último post da edição

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Cleycianne

Eu juro que queria atualizar o blog com um texto falando sobre minhas mais deliciosas mudanças de vida...

Mas não pude agüentar. Desde que conheci o blog da Cleycianne, uma serva do Senhor no mundo da internet, http://cleycianne.blogspot.com/, não consegui parar de ler. É hilário !!!

Há quem diga que é tudo verdade, eu duvido. Os comentários também são ótimos.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Mídia

Uma das minhas melhores amigas está em uma comunidade do Orkut que se chama “pavor de gente descolada”. Eu entrei também. Mas essa mesma amiga me mandou um mp3 de uma banda que ganhou o WMB da MTV no ano passado.

Por aqui, eu ando interessada em um Colóquio Internacional de Assuntos Feministas, que vai acontecer em maio (Floripa). Mas também viciei em um blog chamado papelpop.com. Leiam, é divertidíssimo !! Acidamente divertido...

Voltando a falar de coisas chatas que não interessam a ninguém, eu comecei a pensar esses dias, o valor de uma ação (e as suas oscilações) deve ser o mesmo que o Ibope pra um programa. O programa com 39 pontos no Ibope (cada ponto vale 52,3 mil televisões ligadas, em São Paulo), tem aproximadamente 2 milhões de pessoas que compõem audiência bruta. Sim, porque uma TV registra um ponto, mas pode estar ligada em um bar, com 20 neguinhos assistindo. Ou numa casa com 3 pessoas. Então, ações são a audiência da bolsa de valores.

Estou gostando muito das coisas que tenho aprendido ultimamente. Pra quem até 1 ano atrás não sabia a diferença entre conta corrente e conta poupança, já sei o que é uma renda fixa. Pós e Pré Fixada, entre outras cositchas más que vou aprender. Pra quem até 2 meses atrás procurava letra do Ramones na Internet, eu li pela primeira vez no Wikipédia sobre o Warren Buffet, o maior investidor do mundo. Eu não troquei o mp3 player pela CBN ainda (calma, muito cedo pra virar adulta), mas que eu tenho acompanhado o volume financeiro do Ibovespa e as cotações das ações, isso eu tenho...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Incógnitas

Sempre gostei daquelas pessoas indecifráveis. Que estão com o olhar além do horizonte, com o pensamento na velocidade de um meteoro, que estão entre nós mas não junto conosco.

Gosto de pessoas que parece que têm um cadáver escondido no armário, como diz a Ailin Aleixo. As que tem segredos. Que são o oposto de tudo o que é considerado normal, ou cool. Pessoas que “quebram” o molde dos meus pensamentos.

Gosto de gente que me dá medo de chegar perto, que parecem que estão sempre indo. Partindo muito mais do que chegando. Partindo sabe elas mesmas pra onde. Gosto de pessoas que parecem que não precisam buscar nada. Que abrem a boca quando querem, e não pra provar alguma coisa. Pra testar ou ser testado. Gente que faz da idéia mais estapafúrdia uma opção totalmente válida e coerente pro momentos delas mesmas, que é único.

O que me deixa intrigada é o que me motiva. A dúvida bem acompanhada é muito melhor companhia que a certeza insossa.Pessoas indecifráveis, indisponíveis...arrogantes até certo ponto. Como se tivessem vindo de outro planeta, e aqui estão, morrendo de tédio.Pessoas que eu nunca entendi muito bem são as que nunca esqueci também. Que mostram o que querem mas escondem a verdade do que são.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Seu corpo, sua marca

Plásticas, luzes ou lentes podem ser reproduzidas em qualquer corpo...músculos torneados, cabelos pintados...até tatuagem pode ser copiada.

Autenticidade.

Customização radical, o corpo e suas marcas como invólucro único, puro.....marcas e suas histórias, intensidades boas e ruins que não podem ser copiadas por qualquer idiota. O caminho das veias na pele branca, o asfalto liso

E cicatriz é uma marca de IDENTIDADE.

Vínculo comigo mesma. Com o que a minha história significa pra mim.

Amo todas as minhas cicatrizes.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Tempo em fatias

Eu nunca tive relógio na minha vida. Também nunca fui muito atenta ao meu celular. Muito disso se deve ao fato de, aos 22 anos, eu ter emprestado meu livro maravilhoso “Toda a Mafalda” para um amigo meu, e ele, me emprestou o não menos maravilhoso “Histórias de cronópios” . Nem eu nem ele nunca devolvemos nossos livros...e no história de cronópios tem uma passagem maravilhosaaaaa sobre o porquê que nunca consegui usar um relógio na minha vida:

Quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você -eles não sabem, o terrí­vel é que eles não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perde-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Mas o caso é que eu tava rolando pelo mercado municipal e me deparei com um relógio bonito e grande que parece aqueles de estações rodoviárias de antigamente. Foi amor a primeira vista e eu decidi levá-lo pra casa comigo. Mas o melhor não é a função de bater as horas. O melhor dele é primeiro a função estética de combinar com a minha pequena lamparina (sim, minha casa tem um quê de velho oeste), e em segundo, gente, até me emociona: o relógio faz tique – taque. Daí que é perfeito pra minha cabeça e raciocínio de baterista. O tique taque parece um metrônomo. Eu fico imaginando pratadas, bumbadas e viradas entre um tique e um taque. Essa fatia de tempo me parece um quebra cabeça, de onde eu vou encaixar o que. E eu fico imaginando e sei que os ritmos que se formam na minha cabeça são perfeitamente executáveis. E eu sou daquelas bateristas que não sabe ler muita partitura (na verdade não sei ler é nada), então eu toco o que minha imaginação transmite. E por isso esse relógio foi perfeito pra mim, pro momento que estou agora.

O momento sublime de sentar na bateria e descer o braço, e martelá-la tanto que as vezes eu sinto que estou mandando uns trovões iluminados nos meus dias de tédio.

Então eu justamente venho aqui fazer um apelo: eu preciso de uma banda. Pode ser de qualquer coisa, desde que seja rock. Rock em todas as suas variáveis e vertentes. Rock de corpo e alma. E peso. E veloz. Mais veloz do que peso talvez. E mais alma do que corpo também. Mais essência do que aparência por favor. E pra todos que dizem que eu não tenho tamanho suficiente pra tocar bateria, respondo com o mesmo slogan do Fox (aquele carro da Fiat) “pequena por fora, gigante por dentro”.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

On the Road

Quando eu tinha 19 anos eu li o Apanhador nos campos de centeio, do J.D. Salinger. Lí em 2 dias, mas reli o livro outras 8 vezes depois. Ele conta a história de um menino revoltado e entediado que é expulso do colégio e fica vagando pelas ruas de Nova York antes de voltar pra casa. Mas a melhor coisa do livro é a irmã dele, a Phoebe Caulfield, que eu uso inclusive de nick no blog (mas já foi no mIRC e em chats de bate papo que hoje eu não tenho mais o menor saco pra freqüentar). É claro que me falta aquele vocabulário típico de crítica literária (que eu não sou) e um certo conhecimento de psicologia (que eu queria ter, verbo no futuro do pretérito) pra explicar o porquê eu gosto tanto da menina, mas eu acho que é porque ela é phoda. Simples assim.

Então quando eu li esse livro eu fiquei absurdamente louca pra viajar por aí. E pra piorar tudo, eu trabalhava em uma livraria, onde podia ler mil livros de graça e era ótimo porque eu podia dividir o meu tempo entre o trabalho, os livros e (melhor não falar). Daí que eu juntei o meu salário de uns 5 meses e fui pra rodoviária. E ainda bem que eu adoro viajar de ônibus, porque pobre do jeito que eu sou não daria pra andar de avião. Fiquei 1 mês mochilando pelo Brasil, em cidades que eu nunca mais voltei. Mas até hoje, eu sei que não devemos refazer viagens ao passado e tal, mas eu queria refazer o trajeto entre Vitória e Salvador.

Claro que eu sempre escrevo um monte de coisas antes pra chegar no ponto que eu queria chegar. Em 2008 eu virei o ano lendo Pé da Estrada do Jack Kerouac. E como não podia deixar de ser, me apaixonei pelo livro, pelo autor e desde então estou lendo tudo e procurando tudo a respeito dele. E eu reli o livro de novo (e emprestei pra uma amiga só porque eu tenho ele em pdf, quem quiser eu mando), e acho a coisa mais arrebatadora e inebriante que alguém possa ter escrito. E se o livro do Salinger teve um efeito sobre mim, imaginem o que acontecerá com Pé na Estrada né...

Então, como daqui a pouco será 2009, e eu quero um ano fervidíssimo, fiquem com uma (apenas uma) das apaixonantes frases do livro (deve tar logo no começo, página 11 ou 12, dependendo da edição):


Mas, nessa época, eles dançavam pelas ruas
como piões frenéticos, e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante — pop — pode-se ver um brilho azul e
intenso até que todos “aaaaaaah!”

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Cafés, cartas e tatuagens

Eu adoro, adoro escrever cartas.
Esse hábito começou na fase áurea dos zines de papel. Quando eu escrevia o “Querido Diário” e me correspondia com outros zineiros do resto do Brasil. Brasil não, eu lembro que tinha correspondentes em Portugal também.

Essa época dos zines era muito, mas muiiiito legal....e eu fazia miséria com cola, papel, caneta e tesoura. Claro que eu uso computador...mas usava para imitar a fonte de máquina de escrever. E eu xerocava tudo e fazia flyers divulgando o meu zine...e quando eu escrevei pros meus correspondentes eles me mandavam flyers de outros zines e bandas também. Então todo o mundo divulgava todo mundo e escrevia pra todo mundo e era ótimo.
Minha paixão pelas cartas começou nessa época, final da década de 90. Onde todos os meus amigos ou tinham uma banda, ou faziam um zine, ou eram vegetarianos, ou punk, ou straigh edge, ou tudo isso junto.

Pra começar que receber uma carta tem infinitamente mais graça do que receber um e-mail. Mas muito mais. Claro que depende muito de quem escreve também. Eu adoro reparar na caligrafia das pessoas, adoro letras gordinhas e grandes, que ocupam quase todo o espaço entre as linhas. Gosto das pessoas que escrevem em cadernos pautados mas que as letras na colam nas linhas. Gosto muito das que não escrevem em papeis pautados. Eu sempre usava envelopes diferentes também. Recortava propagandas de revista e jornal e dobrava, fazendo um envelope. Daí fazia uma etiqueta branca com o destinatário e o remetente. Daí um dia, fuçando num sebo, eu achei uma revista em quadrinhos japonesa. Comprei e, como eu não leio em japonês eu uso pra fazer envelopes e papel de presentes. Quase todos os meus amigos já ganharam presentes meus embalados pelas folhas essa revista.

Essa folia de zines e correspondentes durou uns 5 anos. Hoje quem escrevia um zine faz um blog. Ou nem faz mais nada. Eu guardei uma porção de cartas dessa época, que quando eu tenho uma fase nostálgica eu lanço Mao das cartas.

A minha correspondente preferida sempre foi e sempre será a Drica, de Maringá. A menina mais fofa foda que existe. Ela faz uns marcadores de livro tão perfeitos, e escreve umas cartas tão deliciosamente saborosas de se ler. Saborosas no sentido literal, pois ela volta e meia me enviava dentro do envelope um saquinho de chá, um sache de capuccino, e assim vai. Fitas e CDs também já trocamos aos montes. Uma vez fiz uns papéis reciclados e mandei pra ela. Ela me devolveu em forma de 2 marcadores lindos. A Drica é a única que eu guardei todas as cartas, desde a primeira. Um dia eu vou tirar o tempo de xerocar todas e mandar de volta pra ela ler. Gosto de imaginar as reações dela lendo tudo o que já escreveu pra mim.

Minha paixão pelas cartas se estendeu pelo mundo postal. Hoje eu penso em fazer uma tatuagem que será um envelope e um carimbo daqueles bem estilosos que os correios põe por cima dos selos. Já tenho uns 5 carimbos diferentes para escolher, hehehehe. O envelope é mais fácil. Tenho adoração também por aquele malote dos correios. Um amigo meu tem um desses (que ele usa bravamente para transportar nobres e importantes cervejas) e um dia vou pedir emprestado e tirar o molde pra fazer uma bolsa do formato “malote correios” pra mim. Teve uma época que eu quis aquela camisa amarela dos carteiros, mas passou. Afinal, aonde eu iria usar ?

Hoje é difícil encontrar correspondentes que sejam desapegados da internet e apegados aos correios. Eu mesma só conheço a Dricalinda. Às vezes eu até me aproveito de algumas situações pra exercer esse meu lado a moda antiga. Uma amiga minha esqueceu a carteira durante a viagem dela e eu mandei por correio, com uma cartinha dentro. Outra amiga precisa (leram né, “precisa”) de um show que eu tenho em DVD. Vou me oferecer pra mandar por correio (e de quebra ganhar a escrita de uma carta), se ela não me achar esquisita demais. Ou pensando bem, se me achar, melhor ainda.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Confissões

Eu tenho uma memória elefantesca. Isso significa que eu lembro de detalhes do parquinho do meu primeiro colégio aos 2 anos de idade. Lembro nomes e sobrenomes de pessoas que estudaram comigo, que saíram comigo ou que eu só falei uma vez na vida. Mas isso é até engraçado, porque se você fez um curso de teatro em 97, eu me lembro de você. Se te encontrei na balada e nos falamos rapidamente, eu também me lembro. Até se nem conversamos e eu só fiquei observando (sou do modelo observativa de pessoa). Mesmo que eu estivesse bêbada (o pior é que lembro de todos os meus fiascos também). Lembro dos diálogos e detalhes dos seus amigos e família. Mas claro que isso sou eu, apenas eu. Daí eu cumprimento as pessoas, como se elas fossem lembrar, mas elas não lembram. Depois de passar várias vezes por maluca, eu percebi que consigo ser imperceptível na vida de alguns. De vários alguns aliás.

Muitas pessoas pensam que eu sou inteligente, mas eu não sou. Eu engano muito bem, porque como eu gosto muito de ler, eu vou seguindo pelos livros memorizando frases e parágrafos e depois recontando-os como se fossem meus. As vezes tem histórias de amigos meus que eu reconto como se fossem minhas, porque elas são boas demais, e eu queria que tivesse acontecido comigo. Daí as pessoas acham que sou eu falando, mas não sou. É um autor que nunca ninguém ouviu falar, mas só uma nerds como eu conhece.

Falar em nerdices, eu resolvi admitir algumas coisas. Até a 8ª série eu sempre passei no 3º bimestre. Eu jamais aprendi a jogar truco na faculdade (mas xadrez sim), e só comecei a freqüentar assiduamente o laboratório 5 (o bar) quando estava no último ano. Eu tenho a carteirinha da biblioteca pública desde os 9 anos de idade. Tenho também do Farol do Saber. Era sócia do clube da ciência e tenho um microscópio que meus pais me deram até hoje.

O problema é que a minha nerdice não tem nenhum talento pra ganhar dinheiro. Aliás, eu nunca vi alguém gostar tanto de coisas que não rendem nada. O que adianta saber jogar xadrez ? Tocar piano ? Nada ! Se ao menos eu fosse uma nerds que gostasse de informática, TI e essas coisas, mas não. Eu sou uma mané, só sei mexer em programas de edição de imagem. Uma amiga minha até hoje costuma me avisar de novos vírus que mandam pra gente por internet pra eu não clicar.

Minha nerdice é daquelas de gostar de coisas inúteis que ninguém mais gosta: Formatações. Bibliotecas. Quebra cabeças de mil peças. Selos. Carimbos de correio. E coisas mais pomposas como o papel da mulher na sociedade contemporânea, a mídia e as artes no pós humano, a semiótica das roupas. A influência das formigas nas rachaduras das calçadas. Nada a ver com nada.

Acho que deve ser por isso que quando eu saio com as pessoas elas não conversam muito comigo. Ou ficam embasbacadas com a minha falsa erudição (hohohoho) ou, bem mais provável, acham que eu sou daquelas pentelhas com opiniões jornalísticas sobre tudo que não percebe quando a galera só quer tomar cerveja e falar merda. Uma grandessíssima mala.

Para combinar com minha veia nerds, eu sempre quis usar óculos. Já escolhi inclusive umas 3 armações diferentes (e não é daqueles com aros grossos não, óbvio demais, são armações clássicas dos nerds). Mas o caso é que eu enchergo muito bem. Uma vez eu tentei pegar um meio grau, um 0,25 que seja. Fui num oftalmologista e errei umas coisas leves, de propósito. Mas o Dr. Disse que eu não iria enganá-lo, que eu não estava errando as coisas que uma pessoa com deficiência erraria. Depois eu não tentei mais.

Agora eu estou numa fase meio escritora Junguiana. Confundo psicologia com conselhos de cobrador de ônibus. Adoro ouvir os problemas alheios e dar pitacos com frases decoradas dos livros do Jung. E até que alguém me diga o contrário, eu juro que estou abafando.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Bicicletas

Essa coisa de ter muita energia pra gastar já me fez ter alguns dissabores na noite Curitiba....

Porque não basta trabalhar 10 horas por dia, ter pós graduação, pegar projetos por fora, costurar e ter uma banda...claro que não basta, eu preciso também praticar esportes !


Então pra quem não sabe, toda quinta feira a noite tem uma galera que anda de bicicleta por Curitiba, saindo do Largo da Ordem às 20h30, sob a guarda da Diretram. E eu sempre vou, sozinha ou acompanhada.

Mas a pós graduação me tira o tempo dos esportes e, por causa das aulas, fiquei um longo tempo sem ir e com isso perdi a “pernada” que eu tinha. Pois bem...uma bela quinta feira dessas eu saio do trabalho animadíssima, chego em casa, e no maior estilo “tirei a bicicleta da garagem” fui calibrar os pneus no posto.

Eu sou uma mulher independente, daquelas que tem sempre na ponta da língua “faço tudo o que um homem faz de salto alto”, fui eu mesma calibrar os pneus. Aí começou o fiasco. Eu regulava a quantidade de ar e antes que eu conseguisse chegar no bico do pneu a bomba disparava e eu ficava me debatendo com a mangueira serpenteando como uma cobra cega (e eu não tinha habilidade necessária para controlá-la). Tentei umas 3 vezes sozinha até que veio a frentista (com dó) e ajudou. Nesse trabalho de dupla (mas não sem dificuldades também), consegui encher os pneus. Senti um olhar de emoção da frentista (eu sempre abasteço lá, sou figura conhecida), me desejando sorte na pedalada.

Muito feliz montada na bicicleta, fui avançando vigorosamente pelas ruas. Força daqui, força dali, de repente começo a sentir a bicicleta mais pesada que o costume. Bem, “costume” não é a palavra que eu posso colocar aqui. Daí chego em uma rua plana, e percebo que ora subo, ora desço. Ora subo, ora desço. Olho pros pneus e eles parecem redondos pra mim. Mas as aparências enganam, já diziam todas as nossas avós, os pneus estão ovais !

Eu não tinha nem chego até o centro e já estava com câimbra. Aliás, eu não tinha ultrapassado o bairro ao lado do meu. Estava fazendo o dobro de força necessária, e com câimbra.

Aí eu quis dar uma de Xena a Princesa Guerreira, ser valente e ir em frente. Não só por mim, pela moça do posto. Pela noite maravilhosa que estava, pelo espírito do night biker e por todos os milhares (tenho certeza que foram milhares) de kilômetros que um dia eu tive juventude o suficiente pra pedalar.

E de repente tudo ficou muito claro pra mim:

1) Eu tenho quase 30 anos e está na hora de eu começar a me comportar como tal.
2) Como uma mulher de quase 30 anos eu preciso de uma bicicleta que represente isso.
3) Os excessos da juventude acabaram pra mim.

Desisti de chegar ao centro. Do roteiro previsto praquela noite, das pessoas fervilhantes que estariam lá. Pedalei sozinha em umas ruasinhas pequenas e arborizadas não muito longe da onde moro. Daquelas com luzes amareladas que saem de luminárias verdes e guaritas na frente de todas as casas chiques que estão por lá. Tenho certeza que dentro de cada guarita devia ter um segurança passando rádio pra todos os outros com o alerta “mulher suspeita de 50 quilos pedalando sem destino”.

Voltei pra casa, com meus pneus ovais, jurando que no dia seguinte iria ao Cicles Jaime ver quais modelos atendem as necessidades de uma mulher de 30 anos.

A próxima vez eu vou ao night bikers de moto.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Um brinde a patinação

Pratique esportes e ganhe saúde.

Duvide da frase acima e entenda o porquê lendo as frases abaixo.

O esporte pode te levar a lugares nunca espontaneamente freqüentados.

Sexta feira estava uma noite linda e quente. Não que seja primavera, mas como até as estações andam indefinidas ultimamente, as árvores tem flores brotando e algumas (em puberdade precoce) com flores já abertas e exalando um perfume de primavera. E eu pensava: pra onde vou depois daqui com certeza não terei patinadas como esta.

Cheguei em casa depois do trabalho e troquei as rodinhas do meu patins (é incrível, certos hobbies são mais caros que outros, as rodinhas do patins são mais caras pra trocar que os pneus da moto =/) e ele ficou perfeito, pronto pra me levar pelo asfalto que eu quisesse.

Acontece que no meio da minha linda patinada, fui passar por uma casa meio abandonada meio favela (achei que tivesse realmente abandonada mas não, moram "pessoas" lá), e de lá de dentro dois cachorros bem vira latas correndo e latindo a toda. Como eu sempre passo lá e esses cachorros sempre latem por tudo e por nada, não deu bola. Mas ou eles estavam com fome ou eu estou muito gostosa, porque um deles me deu uma bela mordida, rasgou minha calça preferida de patinação e ainda conseguiu me derrubar no chão. E daí tudo ficou uma merda....cadê meu MP3 ? Cadê meu celular ? Cachorro filha da puuutaaaaaaa...tomara que morra com o meu veneno.

Mas não, ele não morreu.

E eu tive que ir pra um posto de saúde, às 23 horas de uma sexta feira. Sabem o que isso signifca ? Eu espero que não, mas eu vou contar aqui: quando você é mordido por cachorro, cobra, aranha e etc e tal, nem adianta ir pra um hospital particular. Eles vão te atender, limpar o ferimento e te cobrar a consulta, mas a vacina tem que ser em postos de saúde. E sexta feira (já me falaram que sábado também) é o dia que a galera tira pra entrar em coma alcoólico, apanhar na rua, bater o carro e etc, uma beleza.

Cheguei no posto, fiz cadastro e ninguém perguntou se era grave ou se tava doendo (afinal, se eu estava de pé e andando não devia ser grave né). E espere alí nos bancos porque médico só tinha um (pra atender umas 50 pessoas mais ou menos). Fui esperar perto do lugar de curativos e, de dentro de uma salinha saiu uma velha louca e uma mulher gorda de bigode, que estavam esperando um bebum tomar glicose. A velha veio perguntando mil coisas e eu querendo ficar quieta na minha. Daí a gorda de bigode veio olhar a ferida, a velha também. Até o bêbado deitado na maca se esforçou pra levantar a cabeça e olhar. Daí todos que passavam olhavam também. E eu comecei a pensar "tudo isso por uma mordida mixuruca, imagina o congresso que esse povo ia fazer se chegasse alguém quebrado de moto).

Apesar de ter demorado eu fui muito bem atendida e o médico fez o curativo e tomei a porra da vacina anti rábica (que serão 5 malditas doses), pq se eu não tomar, e o cachorro tiver raiva, eu posso pegar e morrer, e agora eu não estou a fim. Mas o problema não é tomar a vacina, e sim ir ao posto de saúde.

Hoje eu já tive que tomar a segunda dose. Fui num outro posto de saúde, mais perto da minha casa, que não é daqueles 24 horas. Uns 10 minutos pra mulher entender que eu moro na mesma rua do posto e que ela tinha sim que me dar a vacina (pq ela já tava me encaminhado pra porra de outro lugar pq não sei como meu cadastro lá estava num bairro 30 kilometros distante da onde eu moro). Resolvido o problema protocolar e surge o problema humano: a enfermeira aplicou vacina pra rubéola (que eu já tinha tomado) e não a anti - rábica.

Bom não ?

Fiquei pensando na dificuldade que é olhar o prontuário a vacina certa. Ou na carteirinha de vacinação que seja. Enfim. Vacina dada não se olha a agulha ? Resignada falei: "então você pode por gentileza aplicar a vacina certa no outro braço ?".

Ainda tenho mais 3 doses pra tomar. Obrigatoriamente em postos de saúde. No dia da mordida o médico não achava o CID (olha só, pra quem entra aqui procurando o CID de mordida de cachorro, todas elas estão aqui > http://www.medicinanet.com.br/cid10/2819/w54_mordedura_ou_golpe_provocado_por_cao.htm)no computador, e ele me disse "só estou achando mordida de crocodilo..." e eu respondi "por mim, pode ser, se você colocar essa eu digo que estava caminhando no Barigui". Acho que humor negro ainda será a minha especialidade, se um dia eu chegar a ser engraçada.

E que nenhum cachorro atrapalhe a semana de vocês

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Tirando a teia de aranha

Não consegui dormir essa última noite.

E toda vez que isso acontece eu começo a ler. Sempre gostei muito de ler, e isso me ajuda a enfrentar as recentes noites de insônia (que não são muitas, só acontecem em ocasiões “especiais”).

Uma dessas noites eu peguei a Lispector para me fazer companhia. Um grande erro. Ler “Perto do Coração Selvagem” é pedir pra ter insônia. Uma escritora aguda, daquelas que machucam a alma às vezes. Mordem e depois assopram. Péssima idéia.

Daí semana passada eu comprei “Noites Brancas”, do Dostoiévski, por 8 pilas aliás (sempre bom avisar né). Em duas noites de insônia acabei com o livro, pq ele é fininho e pequenininho...a história é ótima, um pouco fantasmagórica na minha opinião. Inclusive, como é um livro de bolso, eu deixei ele na minha bolsa por umas 3 semanas. Aproveitava as filas onde eu estivesse (bancos principalmente) e dava a minhas folheadas. Acontece que eu comprei um batom marrom vampiro muito vagabundo, que também andava na bolsa pra cima e pra baixo comigo. E eu não vi que tinha saído a tampinha, e o refil do batom ganhou liberdade dentro da bolsa. Assim ela ficou inteira marrom, e o “Noites Brancas” também. Irônico.

Mas eu estou contando tudo isso pra falar sobre ontem na verdade. Foi aniversário do meu melhor amigo e, assim sendo, fomos todos comer pizza e tomar vinho. E já dizem os antigos: não dê chance ao azar. Não que eu tenha enchido a cara nem nada, mas com certeza seria reprovada no bafômetro da blitz que estava instalado na rua mais insuspeita que eu ia atravessar pra chegar em casa. Ainda bem que deu tempo de mudar a rota antes de ser pega e multada. Mas isso não foi nada, porque a duas quadras da blitz aconteceu um mega acidente. Não que eu tenha parado pra ver, nem fodendo. Mas tinha bombeiro, Siate, polícia e uns 50 desocupados que com certeza deviam estar em tédio existencial pra ver a desgraça alheia às 11 horas da noite num frio de 8 graus. Só que o power acidente aconteceu na rua que primeiro: eu sempre uso pra vir trabalhar e segundo: era a minha rota de fuga da blitz.

Voltei pra casa com aquela sensação de que “podia ter sido comigo”. E eu amo aquela rua. Amo. Ela é estreitinha, daquelas que passam um só carro por vez, tem um monte de árvores floridas, árvores frutíferas e é paralela ao trilho de trem.

Voltei por umas ruas escuras e sem charme nenhum. Impressionadíssima com o acidente e temendo alguma outra blits. Resultado ? Às 3h33 da manhã eu estava na página 53 de “Senhora”, do José de Alencar. Foi a última vez que olhei no relógio, logo depois adormeci. Queria dizer pra galera, Rivotril não é nada ! José de Alencar é o que há !

Sinto que achei o meu autor pras noites de insônia. Acho que ele devia ser daqueles caras que usavam ceroulas e penteavam o bigode com pentes de plástico marrom de R$ 1.00. Ninguém, na literatura mundial, consegue ser mais chato do que ele. Três páginas descrevendo um guarda roupas. Como diz uma amiga minha, “meu pai querido.....”

Esses dias eu achei lá em casa um “Iracema”, edição 1972, com as páginas em cor amarelo gema de ovo escuro, intacto. Deve ter sido dos meus pais. Daqui a pouco eu vou sair pra almoçar e procurar “O Guarani” em algum sebo. “Lucíola” também vale. Do jeito que minhas noites andam insones, eu posso precisar de uma dose cavalar. Melhor me precaver.



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Loja de conveniência

Juro que eu tenho menos pena de quem tem esses transtornos repetitivos, bipolares e etc do que aquelas pessoas que não conseguem sair de casa sem fazer chapinha no cabelo, passar quilos de maquiagem, ou besuntar o cabelo de gel, espremer os peitos dentro de uma blusinha "PP" e a bunda em uma calça 36, e agir 24 horas por dia como se estivesse em uma vitrine.

Tenho muito menos pena (na verdade, não tenho pena nenhuma) de quem fica feliz curtindo o sábado a noite em casa (na sua própria companhia) do que quem faz questão de sair, pagar deizão de estacionamento, 30 reais pra entrar na balada (depois de ficar 1 hora na fila), ouvir umas cantadas medíocres e voltar pra casa sentindo como se tivesse abalado a vida noturna da cidade.

Juro que tenho também muito mais admiração por aquelas pessoas que traçam um sandubão com coca cola (gorda, nada light. Coca cola gorda) sem culpa do que aqueles seres prostrados que contam calorias e marcam os pontos de tudo o que comem se esforçando pra fechar o zíper e entrar nos padrões.

Muito melhor encontrar uma pessoa que sabe perder e recomeçar, que sabe esperar o tempo passar, as situações se digerirem do que alguém que engata relacionamento atrás de relacionamento, com medo de sentir solidão por não estar acompanhado. Ou ainda pior, perder a deliciosa sensação da solidão com alguém que não te faz companhia de fato.

Adoro ver na rua alguém com os cabelos bagunçados, tênis furado, roupas mal ajambradas e quem sabe gastas pelo tempo de uso. Adoro ver porque eu sei que ainda existem pessoas que não se enquadram nas vitrines programadas dos shoppings antenados nas tendências que não têm nada a ver com a individualidade (a moda copiada por muitos, vocês sabem).

Adoro, adoro, ADORO encontrar pessoas que são muito mais espertas pra ganhar o seu próprio dinheiro de forma livre e despretensiosa (e com certeza, muito menos tediosa) do que aquelas que têm uma carreira "invejável", uma competência dissimulada e não fazem outra coisa a não ser fazer marketing de uma margarina qualquer e ter que provar o seu lugar em qualquer grupinho de pessoas.
E eu ainda não terminei...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

# Aumente o tamanho do seu pênis ## Elimine sua celulite # # Acabe com quilos extras # # Implante de cabelo ##

Inseguranças e incertezas.....

Como se nossos corpos, pele e cabelos fossem algo que se devesse reformar, disfarçar, esconder. Como se fosse algo grosseiro...

Caos alimentar. Baixa auto estima. Eterna juventude ?

O mais bizarro é que como homens e mulheres estão cada vez mais insatisfeitos com seus corpos e aparências, significa que as falsas promessas da indústria da beleza convencem.

Necessidades homogêneas para aparências uniformes ??

Mais uma cópia do que está na mídia ?
Em busca do ideal esquecemo-nos do que é o REAL ?

Plásticas, luzes ou lentes podem ser reproduzidas em qualquer corpo. Músuculos torneados, cabelos pintados...até tatuagem pode ser copiada.

Mas quem se importa ? Vamos todos superar limites e agregar valor.

...Enquanto parecemos com nós mesmo, SOMOS nós mesmos...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Somos todos consumidores e consumíveis

Você deseja porque sente que se tiver, terá mais do que o produto, terá o que ele representa. Afinal, tudo pode ser vendido. Todas aquelas palavras abstratas (ou intangíveis como diria o marketing) pode ser vendido: Liberdade, amor, importância, consideração. É só olhar campanhas institucionais de qualquer marca. Possuindo você pode ser mais feliz ou mais legal ? Pura merda. Vai ser a mesma pessoas de antes. Só alguns R$ mais pobre. Essa é uma das técnicas. Manter as pessoas sempre desejosas, infelizes....achando que se tiverem isso e aquilo vão estar em um degrau a mais.

E como a vida anda cada vez mais vazia, acaba-se sempre conseguindo. Na fragilidade de emoções tão difíceis de se conviver vira-se presa fácil. O homem é um ser ambíguo, vitima e réu ao mesmo tempo. Ao ver uma Cristina Aguilhera chacoalhando em qualquer clip acelerado deseja-se ter o que ela tem: poder, dinheiro, sucesso. Óbvio, mas o desejo vai além disso: deseja-se o que ela representa, a juventude, a beleza, a admiração que ela obtém (de fãs acéfalos, pode ser uma parte da verdade).

Ter coisas. Fazer e pagar contas. Aparência. Isso engana, mas não salva ninguém do vazio e da ignorância. Apenas é uma forma conivente de se viver. Conivente com o que a sociedade, teus pais, teus vizinhos e teus amigos esperam de você. É apenas concordar sem questionamento com tudo o que lhe chega aos ouvidos, olhos, boca, nariz e sentimentos. Marcas, não produtos, pra você disfarçar e ser quem você não é. “Cultura” da forma que se apresenta, reality shows interativos, programas de auditório, novelas da “vida como ela é”... só servem induzir uma necessidade de “integração”, de saber qual é o “esquema”, uma forma de controle para garantir que até a conversa de bar seja do Big Brother X, a novela Y. Ou você sabe do que se trata ou tenha o que falar. O triste é que mesmo que você veja a “realidade” você olha para os lados e PERCEBE QUE TODO O MUNDO ESTÁ DANÇANDO A MESMA MÚSICA !

Não compre. E também não assista. Com certeza é indispensável a sua vida. Essa vida que você nem sente mais. Que está além da TV, do sofá e das suas paredes. Além da sua solidão. Da sua angústia. Das suas dúvidas. Aliás, dúvidar é muito mais autêntico hoje do que a certeza.

Não ter bens é um sinal de resistência. É pra quem pensa. E pensar, nos dias de hoje, é pra quem sabe que nem todos os dias são ensolarados.